IA na medicina: 66,1% dos médicos pesquisados já usam a tecnologia

A IA na medicina já faz parte da rotina de boa parcela dos profissionais pesquisados no Brasil. Um levantamento realizado pela MV revelou que 66,1% dos médicos participantes afirmaram utilizar ferramentas de inteligência artificial de forma regular ou ocasional em suas atividades.

O estudo, chamado O Uso de Inteligência Artificial por Médicos no Brasil, integra a primeira edição da pesquisa MV Insights. Ao todo, foram ouvidos 196 profissionais do ecossistema de saúde, incluindo 112 médicos em atuação ou formação nas cinco regiões do país, entre o segundo semestre de 2025 e o início de 2026.

Portanto, o dado mostra uma tendência relevante, mas precisa ser interpretado corretamente. Ele não permite afirmar que 66,1% de todos os médicos brasileiros já utilizam IA.

Ainda assim, o cenário demonstra que a tecnologia deixou de ser apenas promessa. Ela começou a participar efetivamente da rotina assistencial.

Como os médicos estão usando IA na medicina?

Entre os médicos que utilizam inteligência artificial, 56,6% aplicam essas ferramentas como apoio à decisão clínica.

Os exemplos citados pela pesquisa incluem interpretação de exames, correlação de sintomas e sugestão de códigos CID.

Além disso, sistemas de IA já aparecem em tarefas como organização de prontuários, transcrição de consultas, pesquisa científica, apoio administrativo e análise de informações clínicas.

Entretanto, existe uma diferença importante entre auxiliar uma decisão e tomar a decisão pelo médico.

Essa distinção passou a ter peso jurídico e ético ainda maior em 2026.

A inteligência artificial pode decidir um diagnóstico?

Não de forma autônoma.

A Resolução CFM nº 2.454/2026 estabelece que a inteligência artificial deve funcionar como ferramenta de apoio. A decisão final sobre diagnóstico, prognóstico, prescrição e tratamento continua sob responsabilidade do médico.

Além disso, o profissional pode rejeitar uma recomendação produzida pela ferramenta quando considerar que ela não corresponde ao quadro clínico, às evidências científicas ou aos princípios éticos da medicina.

Portanto, a IA na medicina não transforma o algoritmo em autoridade clínica.

A tecnologia pode sugerir.

O médico precisa avaliar.

Esse modelo é importante porque sistemas generativos podem produzir respostas convincentes e, ainda assim, incorretas.

O paciente precisa saber que a IA foi usada?

Sim, quando a tecnologia tiver participação relevante no cuidado.

O CFM determina que o paciente seja informado de maneira clara e acessível sobre a utilização da inteligência artificial como apoio ao atendimento. Além disso, a norma exige que o médico registre no prontuário a utilização da ferramenta quando ela participar do processo decisório.

A resolução também proíbe delegar à IA a comunicação de diagnósticos, prognósticos ou decisões terapêuticas.

Essa função permanece humana.

O objetivo é impedir que eficiência tecnológica enfraqueça elementos fundamentais da relação médico-paciente, como escuta, empatia, explicação e responsabilidade profissional.

O uso de IA pelos médicos exige comprovação científica?

Esse é outro ponto central.

O CFM permite ao médico recusar tecnologias que não tenham validação científica, certificação regulatória pertinente ou que contrariem princípios técnicos, éticos ou legais.

Consequentemente, não basta uma ferramenta produzir uma resposta aparentemente sofisticada.

Hospitais, clínicas e profissionais precisam avaliar:

  • finalidade da ferramenta;
  • evidências disponíveis;
  • taxa de erro;
  • população utilizada no treinamento;
  • limitações conhecidas;
  • atualização do modelo;
  • possibilidade de auditoria;
  • proteção dos dados processados.

Em saúde, uma resposta errada não representa apenas um problema de produtividade.

Ela pode interferir diretamente na vida de uma pessoa.

Dados de saúde podem ser enviados para qualquer ferramenta de IA?

Não deveriam.

Dados referentes à saúde são classificados pela LGPD como dados pessoais sensíveis. Por isso, seu tratamento exige cuidados reforçados.

A própria ANPD já destacou que o crescimento de inteligência artificial, dispositivos conectados e plataformas digitais aumentou significativamente o processamento de informações de saúde e exige maior atenção à conformidade com a LGPD.

Nesse cenário, copiar informações de um prontuário e inseri-las em qualquer plataforma pública de IA pode criar riscos importantes.

Dependendo do conteúdo, o profissional pode estar compartilhando:

  • nome do paciente;
  • diagnóstico;
  • medicamentos;
  • resultados de exames;
  • histórico clínico;
  • dados genéticos;
  • informações psicológicas;
  • dados biométricos.

Por isso, a IA na medicina também é um problema de segurança da informação.

Hospitais e clínicas precisam saber quais ferramentas estão autorizadas e como os dados são processados.

A Resolução do CFM criou níveis de risco para IA?

Sim.

A Resolução nº 2.454/2026 classifica os sistemas de inteligência artificial em níveis de risco baixo, médio, alto e inaceitável.

A análise considera fatores como impacto sobre direitos fundamentais, autonomia do sistema, complexidade e sensibilidade dos dados envolvidos.

Além disso, instituições que desenvolvem ou utilizam determinados sistemas próprios devem criar processos internos de governança e, quando aplicável, uma Comissão de IA e Telemedicina vinculada à direção técnica.

Esse ponto mostra uma mudança importante.

A adoção da tecnologia deixa de ser simplesmente uma decisão de TI.

Ela passa a envolver direção médica, jurídico, compliance, proteção de dados e segurança digital.

Quanto médicos estão dispostos a pagar por IA?

O estudo da MV encontrou outro comportamento interessante.

Entre profissionais com 6 a 20 anos de formação, 85,7% disseram estar dispostos a pagar do próprio bolso por ferramentas de inteligência artificial.

Nesse grupo, o valor médio estimado foi de R$ 111 por mês.

Já entre médicos no início da carreira, o valor ficou em R$ 65. Entre profissionais mais experientes, chegou a R$ 62.

Isso sugere que a adoção não depende simplesmente da idade.

Experiência profissional, capacidade financeira e percepção de utilidade também influenciam a decisão.

Quais são as principais barreiras?

O custo apareceu como principal dificuldade.

Segundo a pesquisa, 30,4% apontaram preço de implantação ou assinatura como obstáculo. Em seguida, 22,3% mencionaram dificuldade de integração com prontuários e sistemas de gestão.

Além disso, profissionais do setor público demonstraram maior preocupação com custo e retorno sobre investimento.

Já médicos da rede privada apresentaram maior exigência em relação a treinamento e comprovação científica.

Portanto, oferecer uma ferramenta de IA não garante sua adoção.

Ela precisa integrar-se ao fluxo clínico, apresentar evidências e demonstrar segurança.

IA pode melhorar a consulta médica?

Pode, principalmente quando reduz tarefas burocráticas.

Já existem sistemas capazes de transcrever conversas, estruturar anamneses e sugerir informações para o prontuário.

Em um caso divulgado em 2026, a Hapvida informou ter ultrapassado 600 mil consultas transcritas com apoio de IA por voz apenas entre janeiro e maio. O conteúdo produzido pelo sistema continua sendo revisado e validado pelo médico antes do fechamento do prontuário.

Esse exemplo ilustra uma aplicação interessante.

A tecnologia assume parte da documentação.

O médico recupera tempo para olhar o paciente.

Entretanto, novamente, a validação humana permanece necessária.

O maior risco pode estar no uso de ferramentas não autorizadas

Outro problema merece atenção.

Profissionais podem começar a utilizar sistemas públicos de IA por iniciativa própria, sem avaliação do hospital ou da clínica.

Esse comportamento cria uma espécie de shadow AI na saúde.

Nesse cenário, a instituição pode sequer saber que dados de pacientes estão entrando em ferramentas externas.

O problema é semelhante ao que ocorre nas empresas quando colaboradores utilizam inteligência artificial sem autorização.

A M A Segurança Digital já analisou esse fenômeno no artigo sobre governança de IA e os riscos do uso de ferramentas generativas dentro das organizações.

Por isso, simplesmente proibir não basta.

É necessário criar ferramentas autorizadas, treinamento e políticas claras.

IA na medicina exige governança, não apenas tecnologia

O avanço registrado pela pesquisa da MV mostra que a inteligência artificial provavelmente continuará crescendo dentro dos consultórios e hospitais.

Entretanto, quanto maior o papel da tecnologia, maior precisa ser a estrutura de controle.

A IA na medicina deve combinar:

  • evidência científica;
  • supervisão médica;
  • transparência com o paciente;
  • proteção de dados;
  • segurança da informação;
  • controle de acesso;
  • registro de utilização;
  • monitoramento;
  • auditoria;
  • treinamento dos profissionais.

O próprio CFM deixou claro que a supervisão humana é obrigatória e que sistemas de IA não podem restringir a autoridade final do médico.

Conclusão: a IA pode ampliar o trabalho médico, mas não substituir sua responsabilidade

O fato de 66,1% dos médicos pesquisados já utilizarem inteligência artificial demonstra a velocidade dessa transformação.

Diagnósticos, interpretação de exames, prontuários e tarefas administrativas começam a receber apoio algorítmico.

Contudo, a evolução tecnológica trouxe uma responsabilidade igualmente maior.

Não basta perguntar se a IA funciona.

É necessário saber como funciona, quais dados utiliza, qual é sua taxa de erro, quem supervisiona a resposta e quem assume a decisão final.

A resposta regulatória brasileira caminha nesse sentido.

A inteligência artificial pode se transformar em uma poderosa ferramenta de apoio ao médico.

Mas quanto mais próxima ela estiver de decisões que afetam a saúde de uma pessoa, maior deve ser a exigência de transparência, segurança e supervisão humana.

A M A Segurança Digital atua com palestras e capacitações sobre inteligência artificial, segurança da informação, proteção de dados e governança tecnológica.

Por Marco Aurélio – Perito em Segurança Digital | M A Segurança Digital

Advogado e Formado em Segurança Pública, é Especialista em Perícia Digital Forense e Direito Digital, Marco Aurélio atua como palestrante em Segurança Digital, com foco na prevenção e análise de incidentes cibernéticos, proteção de dados e compliance digital. Criador da M A Segurança Digital e autor do livro “Filhos Conectados, Pais Preparados”, dedica-se a traduzir a tecnologia em linguagem jurídica e prática para empresas e profissionais do Direito.

Fontes consultadas

A Medicina S/A apresentou os principais resultados da primeira edição do MV Insights sobre utilização da inteligência artificial por médicos no Brasil.

O Conselho Federal de Medicina detalha na Resolução CFM nº 2.454/2026 as regras sobre supervisão humana, transparência, responsabilidade e proteção de dados no uso de IA.

A Agência Nacional de Proteção de Dados reconhece os riscos relacionados ao crescente tratamento de dados pessoais sensíveis de saúde por tecnologias como inteligência artificial e plataformas digitais.

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