A cartilha de segurança digital lançada pela Universidade Federal de Santa Catarina reúne orientações práticas para reduzir riscos de phishing, roubo de credenciais, perda de dados e outros incidentes no ambiente universitário.
Produzido pela Secretaria de Governança Eletrônica e Tecnologia da Informação e Comunicação, a SeTIC/UFSC, o material aborda senhas fortes, autenticação multifator, proteção de dispositivos, VPN, backups, identificação de e-mails maliciosos e tratamento de dados pessoais conforme a LGPD.
Além disso, a publicação apresenta os chamados 12 hábitos do servidor seguro, pensados para consulta rápida e utilização no cotidiano de professores e servidores.
A iniciativa parte de uma ideia importante para qualquer organização: firewall, antivírus e outras tecnologias ajudam, mas não eliminam os riscos criados por decisões humanas.
Por isso, segurança da informação também depende de comportamento.
O que é a cartilha de segurança digital da UFSC?
A cartilha de segurança digital da UFSC, oficialmente denominada Cartilha de Segurança da Informação, reúne de forma simplificada boas práticas trabalhadas no curso Segurança da Informação e Certificação Digital da Universidade.
O conteúdo foi desenvolvido para que servidores e demais integrantes da comunidade universitária consigam consultar rapidamente orientações diante de situações do cotidiano.
Entre os temas estão:
- criação e armazenamento de senhas;
- autenticação multifator;
- identificação de phishing;
- proteção do computador;
- uso de VPN;
- Wi-Fi institucional;
- atualizações de segurança;
- backups;
- tratamento de dados pessoais;
- resposta a incidentes.
Portanto, a proposta não é transformar cada usuário em especialista em cibersegurança.
O objetivo é reduzir comportamentos que frequentemente facilitam golpes e incidentes.
Por que não devemos reutilizar a mesma senha?
Um dos primeiros conselhos da cartilha é utilizar senhas diferentes para serviços diferentes e armazená-las em um gerenciador de senhas.
Essa recomendação evita um problema conhecido como reutilização de credenciais.
Imagine que a mesma senha seja utilizada no e-mail pessoal, em uma loja virtual e no ambiente profissional.
Se um dos serviços sofrer comprometimento e aquela combinação de usuário e senha for obtida por criminosos, ela poderá ser testada automaticamente em outras plataformas.
Consequentemente, um único vazamento pode abrir várias contas.
Por isso, senhas longas, exclusivas e armazenadas com segurança representam uma das primeiras barreiras contra invasões.
Autenticação de dois fatores realmente aumenta a segurança?
Sim.
A cartilha recomenda habilitar múltiplo fator de autenticação, também conhecido como MFA, sempre que o serviço oferecer essa possibilidade.
Nesse modelo, possuir apenas a senha não basta.
O usuário precisa comprovar sua identidade por outro fator, como aplicativo autenticador, chave de segurança ou outro mecanismo disponível.
Assim, caso uma credencial seja roubada em uma página de phishing, existe uma barreira adicional contra o acesso não autorizado.
Entretanto, MFA não torna uma conta invulnerável.
Criminosos também utilizam engenharia social para convencer vítimas a fornecer códigos ou aprovar solicitações fraudulentas. Por isso, nenhuma pessoa deve autorizar uma autenticação que não iniciou.
Como identificar um e-mail de phishing?
Poucos dias antes de divulgar a cartilha, a própria UFSC publicou um alerta específico sobre falsos e-mails institucionais.
Entre as mensagens identificadas estavam avisos falsos sobre caixa de e-mail cheia, conta em risco, recuperação de acesso e suposta expiração de senha.
A orientação da SeTIC é observar principalmente:
- endereço real do remetente;
- domínio depois do símbolo @;
- destino do link antes de clicar;
- pedidos de senha ou dados pessoais;
- ameaças de bloqueio imediato;
- mensagens que tentam provocar urgência.
Essa última técnica é bastante usada em engenharia social.
O criminoso quer reduzir o tempo disponível para a vítima pensar.
Por isso, mensagens como “sua conta será bloqueada hoje” ou “confirme agora para não perder o acesso” devem aumentar a atenção, e não acelerar o clique.
A M A Segurança Digital já analisou situações semelhantes no artigo sobre golpes utilizando e-mails institucionais e comunicações aparentemente legítimas.
Passar o mouse sobre o link ajuda a identificar golpe?
Pode ajudar bastante.
A UFSC orienta o usuário a posicionar o cursor sobre o link antes de clicar para verificar qual endereço será realmente aberto.
Isso é importante porque o texto visível pode dizer:
“Portal oficial da universidade”
enquanto o endereço escondido aponta para um domínio completamente diferente.
Também existem ataques que registram endereços muito parecidos com os originais, alterando apenas uma letra ou adicionando palavras.
Portanto, observar o domínio é uma prática simples que pode impedir o roubo de credenciais.
Por que a UFSC recomenda o uso de VPN?
A cartilha orienta servidores a utilizar a VPN da UFSC ao acessar determinados sistemas fora do campus.
Uma VPN cria um canal protegido entre o dispositivo e a infraestrutura remota.
Dessa forma, serviços internos podem ser acessados de maneira controlada sem a necessidade de expor diretamente determinados recursos à internet.
Entretanto, VPN não deve ser confundida com anonimato ou proteção absoluta contra ataques.
Ela protege uma parte da comunicação. Ainda assim, phishing, malware e roubo de senha continuam possíveis.
Por isso, a M A Segurança Digital já explicou em detalhes o que é VPN, como funciona e quando vale a pena utilizá-la.
Atualizar o computador realmente faz diferença?
Sim.
A cartilha de segurança digital também orienta os usuários a ativarem atualizações automáticas nos dispositivos.
Atualizações não existem apenas para adicionar novos recursos.
Frequentemente, elas corrigem vulnerabilidades identificadas depois que determinado sistema ou aplicativo já está em funcionamento.
Quando uma falha conhecida permanece sem correção, criminosos podem explorar essa vulnerabilidade utilizando ferramentas automatizadas.
Consequentemente, manter sistemas atualizados reduz parte da superfície disponível para um ataque cibernético.
Por que fazer mais de um backup?
Outro conselho relevante é manter cópias dos arquivos importantes em meios diferentes.
A UFSC exemplifica a combinação de armazenamento externo e nuvem.
Essa estratégia ajuda porque um único backup pode falhar.
Um HD externo pode apresentar defeito. Uma conta em nuvem pode ser comprometida. Já um ransomware pode criptografar arquivos acessíveis pelo computador infectado.
Portanto, cópias independentes aumentam a capacidade de recuperação.
Além disso, empresas e instituições precisam testar periodicamente se realmente conseguem restaurar esses dados.
Um backup que nunca foi validado pode oferecer apenas uma falsa sensação de segurança.
O que a LGPD tem a ver com segurança digital?
A cartilha também relaciona segurança da informação ao tratamento de dados pessoais.
Essa conexão é fundamental.
O artigo 46 da LGPD estabelece que controladores e operadores devem adotar medidas técnicas e administrativas capazes de proteger dados contra acessos não autorizados, destruição, perda, alteração, comunicação ou tratamento inadequado. Além disso, essas medidas devem ser consideradas desde a concepção dos serviços.
Assim, proteção de dados não se limita à publicação de uma política de privacidade.
Ela envolve controles reais.
Senhas, MFA, atualização, backup, controle de acesso, conscientização e resposta a incidentes também fazem parte dessa estrutura.
O que fazer quando ocorre um incidente?
Outro mérito da iniciativa é não tratar segurança apenas como prevenção.
A cartilha também orienta sobre o que fazer depois de uma suspeita ou incidente.
Na UFSC, dúvidas, suspeitas e ocorrências de segurança podem ser encaminhadas à SeTIC. Já questões envolvendo dados pessoais e direitos dos titulares possuem canal próprio junto ao encarregado pelo tratamento de dados pessoais da Universidade.
Isso demonstra um princípio que vale para qualquer organização:
o usuário precisa saber para quem reportar um problema.
Não adianta possuir ferramentas avançadas se um funcionário identifica algo suspeito e não sabe qual setor deve procurar.
Quanto mais rapidamente o incidente chega à equipe correta, maiores podem ser as possibilidades de contenção e investigação.
A maior proteção está no firewall ou no usuário?
Não é necessário escolher um dos dois.
Cibersegurança funciona por camadas.
Firewall, proteção de endpoint, filtros de e-mail, VPN e monitoramento são importantes. Entretanto, o usuário também precisa reconhecer situações de risco.
A própria cartilha da UFSC resume essa ideia ao destacar que a proteção da Universidade não depende somente dos servidores e equipamentos de rede.
Esse ponto é especialmente relevante porque phishing e engenharia social tentam justamente contornar a tecnologia atacando a pessoa.
Se o criminoso convencer um funcionário a entregar sua senha voluntariamente, ele poderá tentar acessar o sistema utilizando uma credencial legítima.
Por isso, treinamento precisa fazer parte da arquitetura de segurança.
Cultura de segurança é mais eficiente que uma campanha isolada
Uma cartilha de segurança digital pode parecer uma medida simples.
Entretanto, seu valor aumenta quando faz parte de uma estratégia contínua de conscientização.
Treinamentos, alertas, simulações, materiais rápidos e canais claros de reporte ajudam a transformar segurança em hábito.
Esse processo precisa ser permanente porque as ameaças também mudam.
Hoje, um golpe pode chegar por e-mail. Amanhã, pode utilizar WhatsApp, QR Code, deepfake ou uma voz clonada por inteligência artificial.
Portanto, mais importante do que memorizar todos os golpes existentes é aprender a reconhecer os mecanismos utilizados pelos criminosos.
Conclusão: segurança da informação começa antes do incidente
A iniciativa da UFSC traz uma mensagem que vale para universidades, empresas, escritórios e órgãos públicos.
Segurança digital não deve aparecer apenas depois de um vazamento de dados ou ataque.
Ela precisa fazer parte da rotina.
Usar senhas exclusivas, ativar autenticação multifator, analisar links, atualizar equipamentos, manter backups e reportar comportamentos suspeitos são medidas simples. Entretanto, quando aplicadas de maneira consistente, elas reduzem oportunidades para o criminoso.
Por isso, a cartilha de segurança digital da UFSC representa mais do que uma lista de recomendações.
Ela reforça uma visão essencial de cibersegurança:
tecnologia protege sistemas, mas pessoas preparadas ajudam a proteger toda a organização.
A M A Segurança Digital atua com palestras, treinamentos e capacitações em segurança digital, cibersegurança, phishing, engenharia social, proteção de dados e conscientização de equipes.
Por Marco Aurélio – Perito em Segurança Digital | M A Segurança Digital
Advogado e Formado em Segurança Pública, é Especialista em Perícia Digital Forense e Direito Digital, Marco Aurélio atua como palestrante em Segurança Digital, com foco na prevenção e análise de incidentes cibernéticos, proteção de dados e compliance digital. Criador da M A Segurança Digital e autor do livro “Filhos Conectados, Pais Preparados”, dedica-se a traduzir a tecnologia em linguagem jurídica e prática para empresas e profissionais do Direito.
Fontes consultadas
A Universidade Federal de Santa Catarina apresentou oficialmente a Cartilha de Segurança da Informação em 16 de setembro de 2026 e detalhou as principais orientações sobre senhas, MFA, VPN, phishing, atualizações, backups e LGPD.
A SeTIC/UFSC também publicou orientação específica sobre falsos e-mails institucionais, explicando como conferir remetente, links, domínios e mensagens de urgência utilizadas em ataques de phishing.
A Lei Geral de Proteção de Dados estabelece no artigo 46 o dever de adoção de medidas técnicas e administrativas destinadas à proteção dos dados pessoais.