O golpe do falso atendente no WhatsApp voltou a acender um alerta no interior de São Paulo. A Polícia Civil de Dracena investiga ao menos 10 ocorrências registradas em apenas 15 dias, nas quais criminosos utilizavam o nome de uma conhecida plataforma de vendas para conquistar a confiança das vítimas e induzi-las a realizar procedimentos no celular.
Segundo a investigação, os golpistas combinavam engenharia social, falsa identidade e contato por WhatsApp. Em vez de começar diretamente com um pedido de dinheiro, eles criavam uma história aparentemente legítima e, em seguida, apresentavam um suposto funcionário da plataforma para conduzir uma “verificação de segurança”.
O método demonstra por que os golpes digitais continuam funcionando mesmo quando bancos, aplicativos e dispositivos possuem cada vez mais mecanismos de proteção.
Em muitos casos, o criminoso não precisa invadir tecnicamente o celular.
Ele precisa convencer a própria vítima a abrir a porta.
Como funciona o golpe do falso atendente no WhatsApp?
O golpe do falso atendente no WhatsApp começa explorando confiança.
De acordo com as informações divulgadas pela Polícia Civil, a vítima recebe primeiro uma mensagem de alguém que aparenta ser uma pessoa conhecida. O contato informa que fez um cadastro em uma plataforma de vendas e precisa indicar números de confiança para concluir o procedimento.
A abordagem cria uma situação aparentemente inofensiva.
Depois disso, surge uma ligação pelo WhatsApp.
O criminoso se apresenta como funcionário da plataforma e afirma que precisa realizar uma suposta confirmação, avaliação ou verificação de segurança.
Então começa a etapa realmente perigosa.
Durante a conversa, o falso atendente orienta a vítima a executar ações no próprio celular, fornecer informações ou compartilhar códigos.
Consequentemente, aquilo que parecia apenas uma confirmação pode terminar com comprometimento de contas, dados pessoais ou recursos financeiros.
Por que esse golpe consegue convencer tantas pessoas?
Porque o criminoso constrói a fraude em etapas.
Primeiramente, aparece uma pessoa aparentemente conhecida.
Em seguida, surge uma empresa reconhecida.
Depois, um suposto atendente utiliza linguagem técnica e cria uma situação que parece rotineira.
Por fim, entra a urgência.
Esse método caracteriza a chamada engenharia social, conjunto de técnicas de manipulação utilizadas para fazer alguém revelar informações ou executar determinada ação.
Portanto, o alvo principal não é necessariamente uma vulnerabilidade de software.
É a confiança humana.
O cenário também combina com um padrão observado em levantamentos mais amplos sobre fraudes. Pesquisa da Global Anti-Scam Alliance analisada pela M A Segurança Digital mostrou que telefone e aplicativos de mensagens continuam entre os principais canais utilizados para aproximar criminosos das vítimas no Brasil.
Uma empresa verdadeira pode aparecer em um golpe falso?
Sim.
E esse é um dos pontos mais importantes.
O criminoso não precisa criar uma empresa inexistente. Pelo contrário, utilizar o nome de uma marca conhecida pode tornar a narrativa muito mais convincente.
No caso investigado em Dracena, a reportagem informa que o g1 procurou o Mercado Livre para obter posicionamento. A empresa ainda não havia respondido até a atualização da matéria.
Isso não significa que a plataforma tenha participação no golpe.
O criminoso simplesmente explora a reputação de terceiros.
A própria documentação de segurança do ecossistema Mercado Livre alerta usuários para nunca fornecerem senhas, códigos de segurança ou informações bancárias fora dos canais oficiais.
Da mesma forma, o Mercado Pago informa que não solicita por WhatsApp senhas, códigos de validação ou dados sensíveis.
Quais sinais indicam um falso atendente?
Alguns comportamentos devem gerar desconfiança imediata.
Entre eles estão:
- pedido de código recebido por SMS;
- solicitação de senha;
- orientação para instalar aplicativo;
- pedido para compartilhar a tela;
- necessidade de fazer Pix para “teste”;
- pressão para agir rapidamente;
- contato originado de número desconhecido;
- pedido para não desligar a chamada;
- fornecimento de um número supostamente oficial pelo próprio atendente.
Esse último ponto merece atenção especial.
O especialista ouvido pela TV TEM alertou que criminosos podem fornecer à vítima um telefone para “confirmar” a autenticidade do atendimento, mas esse número também pode pertencer à própria quadrilha.
Por isso, a confirmação precisa ocorrer por um canal obtido independentemente.
Feche a conversa e procure o aplicativo ou site oficial da empresa.
Como se proteger do golpe do falso atendente no WhatsApp?
A primeira regra é simples:
nenhuma urgência deve impedir uma verificação.
Se alguém ligar alegando problema com conta, cadastro, pagamento ou segurança, encerre o contato.
Em seguida, abra diretamente o aplicativo oficial da instituição.
Além disso:
- nunca entregue códigos de autenticação;
- não compartilhe senhas;
- ative a autenticação em dois fatores;
- não instale aplicativos indicados durante ligações inesperadas;
- evite compartilhar a tela do celular;
- confirme pedidos de conhecidos por outra forma de contato;
- revise dispositivos conectados às suas contas;
- mantenha sistema e aplicativos atualizados.
O Mercado Pago também recomenda que usuários desconfiem de mensagens urgentes, não forneçam códigos de verificação e utilizem confirmação em duas etapas no WhatsApp.
O que fazer se já caiu no golpe?
Aqui, velocidade importa.
Se houve transferência por Pix, o Banco Central orienta a vítima a contestar a transação imediatamente pelo aplicativo do banco para tentar acionar o Mecanismo Especial de Devolução, o MED.
O MED foi criado especificamente para casos de fraude, golpe ou crime.
Atualmente, o pedido pode ser apresentado em até 80 dias da transação. Entretanto, quanto mais rápido a vítima agir, maiores podem ser as possibilidades de bloquear valores que ainda estejam nas contas envolvidas.
Ainda assim, existe uma ressalva importante:
o MED não garante que o dinheiro será recuperado.
A devolução depende da análise das instituições e da existência de recursos disponíveis.
Além disso, o Banco Central orienta registrar boletim de ocorrência e apresentar documentos e comprovantes relacionados à fraude.
Não apague as conversas: elas podem virar prova digital
Depois de perceber o golpe, muitas pessoas bloqueiam o criminoso e apagam tudo.
O bloqueio pode ser necessário. A exclusão imediata das evidências, entretanto, pode dificultar a investigação.
A própria Polícia Civil de Dracena está reunindo, nos inquéritos, elementos como:
- conversas;
- mensagens;
- e-mails;
- contatos por aplicativos;
- comprovantes bancários;
- registros das transações.
Por isso, antes de eliminar o conteúdo, preserve:
número utilizado, perfil, mensagens, horários, comprovantes, links, áudios e demais informações relacionadas à fraude.
Capturas de tela ajudam, porém arquivos originais e registros completos podem acrescentar informações relevantes em uma perícia digital.
Quanto melhor a preservação, maior a possibilidade de reconstruir a cronologia e identificar elementos técnicos da fraude.
O golpe pode ser enquadrado como fraude eletrônica?
Dependendo das circunstâncias apuradas, sim.
O Código Penal prevê a modalidade de fraude eletrônica no artigo 171, § 2º-A.
Após alteração promovida pela Lei nº 15.397/2026, a norma prevê pena de quatro a oito anos de reclusão e multa quando a fraude utiliza informações fornecidas pela vítima ou por terceiro induzido a erro por meio de redes sociais, contatos telefônicos, e-mail fraudulento, duplicação de dispositivo eletrônico, aplicação de internet ou meio análogo.
O enquadramento concreto, entretanto, depende dos fatos identificados pela investigação.
Por que o WhatsApp aparece tanto nos golpes?
Porque o aplicativo faz parte da rotina das pessoas.
Famílias conversam pelo WhatsApp.
Empresas atendem clientes pelo WhatsApp.
Profissionais negociam pelo WhatsApp.
Consequentemente, o criminoso entra justamente no ambiente onde já existe confiança.
Além disso, uma fotografia conhecida, um nome correto ou uma informação verdadeira podem diminuir a desconfiança inicial.
Foi o mesmo mecanismo observado em outros tipos de fraude, como o golpe do falso advogado, no qual criminosos combinam informações verdadeiras com uma história falsa para solicitar pagamentos.
Portanto, reconhecer a fotografia ou saber que a pessoa conhece determinado detalhe não basta mais para comprovar identidade.
Engenharia social explora pressa, medo e confiança
O golpe do falso atendente no WhatsApp reforça uma característica importante do cibercrime atual.
A fraude pode utilizar tecnologia, mas sua principal ferramenta continua sendo a manipulação.
O criminoso cria confiança.
Depois introduz urgência.
Em seguida, assume autoridade.
Por fim, orienta a vítima a realizar justamente a ação necessária para concluir o golpe.
Por isso, uma das melhores medidas de segurança continua sendo interromper esse ciclo.
Desligue. Confira. Procure o canal oficial por conta própria. Só depois tome qualquer decisão.
Conclusão: segurança digital também significa saber desconfiar
Os dez casos investigados em apenas 15 dias no interior paulista mostram como uma mesma estratégia pode ser repetida contra diferentes pessoas.
O golpe do falso atendente no WhatsApp funciona porque mistura elementos reais com uma narrativa falsa.
A plataforma pode existir.
O nome utilizado pode ser conhecido.
A linguagem pode parecer profissional.
Entretanto, nenhuma dessas características comprova que o contato é legítimo.
Por isso, segurança digital não depende somente de antivírus, firewall ou autenticação.
Também depende de comportamento.
Quando alguém tentar impedir você de pensar antes de fornecer uma informação, esse já deve ser o primeiro sinal para interromper a conversa.
A M A Segurança Digital atua com palestras, treinamentos, perícia digital e orientação sobre engenharia social, golpes virtuais, proteção de dados e prevenção a fraudes.
Por Marco Aurélio – Perito em Segurança Digital | M A Segurança Digital
Advogado e Formado em Segurança Pública, é Especialista em Perícia Digital Forense e Direito Digital, Marco Aurélio atua como palestrante em Segurança Digital, com foco na prevenção e análise de incidentes cibernéticos, proteção de dados e compliance digital. Criador da M A Segurança Digital e autor do livro “Filhos Conectados, Pais Preparados”, dedica-se a traduzir a tecnologia em linguagem jurídica e prática para empresas e profissionais do Direito.
Fontes consultadas
A reportagem do g1/TV TEM detalhou os dez casos investigados em Dracena, o funcionamento da abordagem e as orientações fornecidas às vítimas.
O Banco Central explica como vítimas de golpes envolvendo Pix podem acionar o Mecanismo Especial de Devolução e quais são suas limitações.
As orientações oficiais do Mercado Pago e Mercado Livre reforçam que senhas e códigos de segurança não devem ser compartilhados em contatos inesperados.
O Código Penal, atualizado pela Lei nº 15.397/2026, disciplina a fraude eletrônica praticada por redes sociais, telefonemas, aplicações de internet e outros meios fraudulentos semelhantes.